Você está disponível?

8h15 da manhã. O elevador do prédio em que trabalho se abre e cinco pessoas, contando comigo, entram calmamente, dizendo “bom dia” e apertando o botão do andar em que vão descer.

O último senhor que entrou, não sei se reconheceu o rapaz que já estava no elevador ou se apenas quis ser educado, mas foi pra ele que o senhor sorriu e disse o clássico “bom dia, tudo bem?”

O rapaz, não sei se por sono ou constrangimento, disse baixinho: “tudo”.

Como o senhor não continuou o diálogo e o rapaz não interagiu o suficiente, a conversa terminou ali, o silêncio no elevador voltou e no 5º andar, eu desci.

Apesar de ver esta cena todos os dias com diferentes pessoas e muitas vezes até sou a protagonista, desta vez ela me fez pensar. Aliás, desde sempre, mas principalmente depois que comecei a escrever, tenho me dedicado a observar comportamentos. Pessoas, famílias, empresas, todas são entidades comportamentais que revelam seu caráter através do que fazem e, o mais importante, de como fazem o que fazem.

Saí do elevador e me perguntei: “Será que o senhor realmente ficou feliz em ver o rapaz e se importou com ele, a ponto de não só desejar um ‘bom dia’ mas perguntar ‘tudo bem’? Ou ainda: teria o rapaz respondido friamente que tudo estava bem porque realmente estava ou usou frases curtas para não ficar falando de sua vida em público? E se ele tivesse dito que não estava nada bem, teria o senhor se preocupado em ajudá-lo?”

Pensei naquela situação, mas pensei principalmente em mim. Tenho sido mero formalismo ou realmente generosa?

Segundo o dicionário, generosidade é a disposição de dar, de atender, de se preoucupar com o bem-estar do outro.

Pessoas generosas costumam ter uma expressão mais leve, sempre pronta para demonstrar sua disponibilidade. Certamente você conhece pessoas disponíveis e não disponíveis. Se você estiver em dificuldade, em qualquer lugar, a qualquer hora, você sabe com quem contar? Pense um pouco. Certamente há uma lista que não hesitaria em largar tudo para te socorrer, mas também há aqueles que você nem ousaria ligar, por mais legais e amigos que sejam, para não se decepcionar com a resposta.

Ser generoso é estar disponível. É dar ao outro o que ele está precisando. O generoso não compartilha o que está sobrando, reparte o melhor que tem. E muitas vezes é visto como bobo, mas não é, acredite. Ele age assim porque é de sua natureza.

Viver ao lado de pessoas generosas é muito bom! Passam muito mais que segurança. Distribuem amor, afastam a solidão e aplicam como ninguém o conceito de viver em sociedade.

Por ter a percepção do tempo e uma visão extremamente capitalista, o ser humano preocupa-se em acumular. Estoca comida, coisas, economiza dinheiro, sonega até afeto, como se este fosse fazer falta mais tarde. Cuidado com a virtude da previsão. Ela pode transformar-se no pecado da avareza.

Não somos o centro do mundo, das coisas…

Não podemos mais permitir que a auto-suficiência, o egoísmo e a prepotência sejam mais fortes do que olhar para o outro, preocupar-se com ele e fazer disso uma experiência enriquecedora.

Enquanto isso não muda, ainda bem que a humanidade conta com uma rede de proteção chamada generosidade.

Fernanda La Salye

Foto: Liander Azevedo

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3 comentários sobre “Você está disponível?

  1. Acho que ao perguntar "tudo bem" nós não queremos realmente saber isso. É como um passo de dança em que se espera do parceiro um movimento previsível, no caso, um "tudo".Nos acostumamos a sermos superficiais e nem nos percebemos como tal.Dificilmente você começa uma conversa produtiva num elevador, mas que tal se ao conversar com alguém, fossemos realmente interessados em saber como o outro está? E se esse interlocutor também se colocasse à disposição?Utopia? Afinal de contas isso aqui é São Paulo MEU! Quem tem tempo pra saber dos outros?Se você não tiver, talvez os outros não tenham tempo pra você.Voce foi muito feliz em verbalizar sua observação. To meditando…

  2. Oi Fernanda, cai por aqui por extremo acaso, digitei: "você está disponível" no google procurando um livro de Sandra Maia e tive a agradável leitura de sua reflexão que me identifiquei plenamente com ela por as vezes ter me passado por bobo também. Concordo com você em gênero número e gráu e se quiser ter um palhinha de como eu penso também, dá uma passadinha no meu blog http://www.aresta-blogdobom.blogspot.com e veja se gosta de alguma coisa. Gde abraco!

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